6 de outubro de 2022
ARTIGOS FELIPE RANGEL

“O evangelho é simples por que Jesus é simples!”

Sempre ouvimos nos púlpitos de nossas Igrejas, nas conversas nas rodas de crentes durantes os encontros sociais a seguinte frase: “O evangelho é simples por que Jesus é simples!”. Sempre que essa expressão é entoada, podemos ouvi-la com o intuito de questionar apontamentos teológicos profundos, levantamento de questões profundas ou contra refinamentos litúrgicos.

            É interessante observarmos esse fenômeno pois ele é atrelado a um anti-intelectualismo que é muito característico da cultura dos meios pentecostais (sugiro a leitura do livro: “Pentecostal de Coração e Mente” – Rick Nañes) e das sociedades luso/brasileira (haja vista o conhecido desapego da dinastia de Bragança a intelectualidade, que a muito deixou no passado essa característica), que visam embasar suas teses de um “evangelho simples” desapegado de uma profundidade bíblica e teológica e que, acaba sempre, baseando-se nas experiências individuais como regra de fé.

            Mas… o que a Palavra de Deus nos quis transmitir quando afirma essa simplicidade? Não há uma direção explícita na Bíblia de que o evangelho de Jesus seja simples, mas sim que Ele o revelou aos simples (“símplices”).

            É inegável uma predileção bíblica por uma vida mais humilde, de espírito contrito, sem apego as riquezas e coisas materiais, mas essa afirmação de que os mistérios daquele que é eterno, que carrega em si a essência da existência, que consegue simultaneamente ser transcendente e imanente (a conferir: “oikonomia” cristã), que é Deus e se “reduziu” à humanidade, seja algo “simples”, simplório, “fácil” parece não condizer com a mensagem trazida pela teodicéia bíblica.

            Primeiro, é preciso entender o conceito de simplicidade quanto atributo de Deus. Ela é baseada na ideia filosófica levantada por Agostinho de Hipona ligada ao ser de Deus, a sua ontologia. Deus é simples por que ele é todo ato e não potência. Deus é um ser que é espírito e não possui a complexidade da natureza humana – que é corpo e espírito.Mas tal característica não o faz um ser banal. Não é por que Deus é um ser de composição simples (só espírito) que o mesmo seja fácil de ser compreendido.

            É interessante pensarmos também que a mensagem de Jesus é posta como um mistério aos que se põem como entendidos e revelada àqueles simples, de coração aberto a Palavra, a serem transformados pela revelação especial, da qual os fariseus, saduceus, escribas, filósofos, pensadores, religiosos não se permitiram serem impactados.

Assim, palavras vans entoadas de púlpitos cercados de emocionalismos e de “avivamentos” baratos tendem a banalizar a profundidade do Evangelho de Cristo e de toda a mensagem da Palavra de Deus porque é assim que operam, assim que agem, sendo os seusmodus operandi baseado em superficialidade e, portanto, os seus resultados serão sempre rasos.

            Concluindo, o que eu gostaria de que os queridos leitores compreendessem é que não podemos reduzir Deus a uma banalidade, a uma simplicidade total pois a base sólida a qual caminhamos foi construída a sangue, suor, labor e dedicação de homens e mulheres de fé e de conhecimento, iluminados pelo Espírito Santo. O que parece fácil e senso comum foi construído a muita luta. Que o Espírito Santo, chamado por Jesus de “o Espírito da verdade” (João 16.13), nos guie a iluminação e pelo caminho vivo e verdadeiro.

Por Felipe de Oliveira Rangel

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Teólogo e Nutricionista Bacharel em Teologia pelo Centro Universitário São José de Itaperuna – UniFSJ Especialista em Gestão Escolar pelo Instituto Superior de Educação de Itaperuna – Isemi/Funita Presbítero consagrado membro da Assembleia de Deus Min. Madureira em Itaperuna – Congregação da Cehab