24 de setembro de 2022
ARTIGOS FELIPE RANGEL

“Um Chamado a Teologia”

“Meus irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo. Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria. Mas, se tendes amarga inveja e sentimento faccioso em vosso corção, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade. Essa não é sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica.”

É com muita honra que inicio minha participação como colunista desta Revista trazendo as palavras de “Tiago, o Justo”, irmão de Jesus, pastor da Igreja de Jerusalém. Este fez esse registro em seu livro bíblico e traz ponderações importantes par nós e a todos que buscam caminhar pelas sendas da jornada teológica. Tiago nos pondera sobre a severidade e importância dada por Deus àqueles que se debruçam ao estudo e ensino das Sagradas Escrituras.

Esta demanda nos traz um alerta a tratarmos com seriedade esta vocação ministerial da qual muitos de nós fomos investidos e busco rememor a força e os desafios que estão em nossas mãos frente às nossas comunidades de fé. A pós-modernidade, bem delimitada pelo filósofo e sociólogo Zigmund Bauman, as “profecias” preditas pelo mesmo e identificadas após o fim da Guerra Fria parecem a cada dia se cumprirem mais. A não-existência da solidez dos conceitos e a liquidez da verdade geram dúvidas, indecisões e discursos religiosos baseados em mentiras, ledo engano, embebidos em partidarismos e, por que não, por vezes intencionalmente maculados por ganância e desejos dominatórios e com intuito de causar dissuasões no coração dos mais humildes fieis.

Queridos, a Teologia é portadora da beleza e do privilégio de dar aos seus adeptos a possibilidade de se fazer ciência, sim! Fazer ciência! Olhando o objeto de estudo “de dentro”. E por sermos um ciência nos obriga a sermos éticos, a seguirmos os preceitos metodológicos que norteiam as ciências humanas, lançando mão não do empirismo racionalista fria e duramente (que por vezes permeia os pensamentos nas nossas Igrejas), mas sendo sensível a compreensão fenomenológica, os desafios de se compreender o “sagrado selvagem”, conforme aponta Mircéa Eliade em seu famoso livro “O Sagrado e o Profano”, sagrado esse que é manifesto em cada fiel, que não é preso pelas amarras litúrgicas, mas características da essência de uma divindade que é ser maior do que a dogmática consegue lhe delimitar e também os resultados que são sim reais pra este na sua saúde, no seu modelo de tomada de decisões, como parte inerente, intrínseca do seu modo de vida.

Nesse cenário, reafirmo aqui o valor da “religião”, da fé, da espiritualidade para a sociedade. Ela que foi formadora de civilizações, que habita o universo dos indivíduos deste as mais remotas eras da história da humanidade e que é parte importante para muitos da construção de caráter, de preceitos éticos, de normativas sociais e, portanto, devem ser consideradas como característica humana e ser sim consideradas no debate público. Os excessos existem e não os negamos, mas como teólogos não podemos relegar a religião, a fé, ao opróbrio e ao ostracismo pois ela é parte fundante na vida das pessoas. É preciso frisar que conceitos de “direitos fundamentais” hoje amplamente incorporados pela sociedade advém da religião como a dignidade humana, o princípio de defesa da vida, a liberdade e a laicidade nascem do seio de pensadores da religião como Saulo de Tarso, Justino, o Mártir, Agostinho de Hipona, Tomás de Aquino, Mahatma Gandhi, Martinho Lutero, Dietrich Bonhoeffer, Martin Luter King Jr., Karol Woltjla, Desmond Tutu, entre outros tantos.

A Teologia séria, com “T” maiúsculo, deve sempre buscar trazer respostas a sociedade e a seus anseios, frente a guerras, violações de direitos humanos, genocídios, crises sanitárias, tempos tenebrosos, questões de bioética, direitos sociais e defesa da vida. Esses desafios são gigantescos, mas cabe-nos agora, cerrar fileiras na construção de um diálogo comum entre os iguais e aberto e franco, respeitando os limites do que é inegociável de nossa fé, com os diferentes, visando a consolidação da paz (“Bem-aventurado os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus” Mateus 5.9), entendendo nosso papel na sociedade e como podemos construir para ampliação e crescimento do respeito, da fraternidade e da liberdade.

Nunca me esqueci das fala de meu professor Dênison Martins, mestre e doutor em filosofia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, na Itália, que disse que “a Teologia se faz com os joelhos no chão”, uma clara menção a uma busca pela humildade, pela dependência e pela caridade para não sermos tentados a soberba do sentimento da arrogância intelectual e também os ensinos de meu Patrono, Prof. Paulo Jonas Jr., mestre, doutor e pós-doutor pela Unifesp, que nos ensinou que “ a Teologia se faz no chão de Igreja” nos fazendo olhar para o que precisa, para o fiel que busca respostas, para uma teologia da “práxis”, que não se perde em seus devaneios meticulosos e sem objetivo, mas que olha para o que precisa, sempre casado com a realidade e está pronto a estender a mão.

Encerro fazendo menção de uma das declarações canônicas mais ricas de teologia e que é uma grande profissão de fé. “η χαρις του κυριου ιησου χριστου και η αγαπη του θεου και η κοινωνια του αγιου πνευματος μετα παντων υμων αμην” – “A Graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vocês. Amém!” Shalom! Maranatha!

FELIPE DE OLIVEIRA RANGEL

Teólogo e Nutricionista

Bacharel em Teologia pelo Centro Universitário São José de Itaperuna – UniFSJ

Especialista em Gestão Escolar pelo Instituto Superior de Educação de Itaperuna – Isemi/Funita

Presbítero consagrado membro da Assembleia de Deus Min. Madureira em Itaperuna – Congregação da Cehab

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Teólogo e Nutricionista Bacharel em Teologia pelo Centro Universitário São José de Itaperuna – UniFSJ Especialista em Gestão Escolar pelo Instituto Superior de Educação de Itaperuna – Isemi/Funita Presbítero consagrado membro da Assembleia de Deus Min. Madureira em Itaperuna – Congregação da Cehab