24 de setembro de 2022
Amós Jubim ARTIGOS

O profeta Elias teve depressão?

É comum que alguns pregadores, defendam que os servos de Deus também podem ser acometidos por depressão. Para isso, mencionam o profeta Elias como um exemplo bíblico de alguém que sofreu com o referido transtorno. Como se chega a tal conclusão? Basta pesquisar os sintomas da depressão e encontrá-los na narrativa de 1 Rs 19.1-8.

É importante ressaltar que a intenção de apresentar um exemplo bíblico de depressão é positiva. Pode, inclusive, ajudar a dirimir de três problemas: primeiro, confrontar a compreensão neopentecostal de que a depressão seja resultado de possessão demoníaca. Segundo, refutar a ideia ultra calvinista de que a depressão seja fruto de pecados não confessados. Terceiro, auxiliar cristãos que receberam diagnóstico de depressão amenizando sua dor. 

É admirável, insisto, o desejo de encontrar no caso bíblico de Elias um exemplo de depressão. No entanto, será que a tarefa hermenêutica está sendo bem feita? Há respaldo exegético para afirmar que o profeta teve depressão? Do ponto de vista da psicologia, é possível diagnosticar um personagem histórico ou fictício, apenas, pelas manifestações sintomáticas? Embora não pretenda esgotar o assunto, considero necessárias algumas observações pontuais a respeito da questão que será distribuída em uma série de publicações. 

1 – A depressão de Elias: Ponto de vista hermenêutico.

A hermenêutica bíblica diz respeito a interpretação do texto Sagrado, em sua forma final, considerando seu gênero literário. Objetiva encontrar o significado claro do texto bíblico para o leitor hodierno [1]. Assim, vê-se que a perícope 1 Rs 19.1-8 é um texto do gênero narrativo, cujo profeta Elias é o personagem principal e Jezabel (19.2) a antagonista. A passagem em análise faz parte de uma coleção maior de narrativas que compõem o ciclo do profeta Elias que encontra-se em 1Rs 17,1 – 2Rs 2, 13 [2]. O profeta é apresentado como alguém de personalidade extraordinária que reflete “[…] uma figura histórica de grandeza quase sobre-humana” [3].

A partir da análise hermenêutica [4] pode-se observar um nítido contraste entre a coragem de Elias nas narrativas anteriores (1 Rs 18.20-40; 1Rs 18.41-46) e sua fragilidade na perícope em apreço. Fica claro em todo ciclo de Elias que sua a missão é restaurar a adoração de YHWH em Israel, conduzindo os monarcas a deixarem os outros deuses. 

A fragilidade do profeta, então, acentua sua humanidade e o fato de que todas as operações miraculosas de seu ministério não são realizadas pelo seu próprio poder, mas pela Providência de YHWH (Tg 5.17-18).

Portanto, a partir destas poucas considerações sobre o ponto de vista hermenêutico, o que se pode afirmar é que as características do profeta Elias, apresentadas na perícope 1 Rs 19.1-8 não servem ao propósito de mostrar um profeta em depressão, mas apresentar um ser humano levantado por Deus e que depende exclusivamente dEle.

Continua…

Referências
[1] OSBORNE, Grant R. A Espiral Hermenêutica: uma nova abordagem à intepretação Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009.

[2] COSTA, Paulo Cézar; MALASPINA, Eduardo. Os ciclos do profeta Elias: a identidade e o desafio do profeta. Diocese de São Carlos, São Paulo: 2020, p. 01.

[3] RAD, Gerhard von. Teologia Do Antigo Testamento. Est; Targumin, 2ª Edição. Vol. II, São Leopoldo: 2012, p. 31.
[4] KÖSTERMBERG, Andreas; PATTERSON, Richard D. Convite à Interpretação Bíblica: atríade hermenêutica – história, literature e teologia. São Paulo: Vida Nova, 2015.